Lembro que na minha infância eu adorava assistir programas de televisão como O Fantástico Jaspion, He-Man e Thundercats. Eu e meu irmão costumávamos imitar nossos ídolos brincando do que chamávamos de “lutinhas de espadas”. As vassouras da minha mãe transformavam-se em armas que protagonizaram inúmeros combates no quintal de casa.
Os tempos passaram e hoje, já adulto, vejo que muitos ainda não perderam o costume com as “espadas”. Porém, a brincadeira se transformou em algo mais sério e organizado, onde concentração, equilíbrio, raciocínio rápido e agilidade são princípios fundamentais desse esporte tão incomum entre os brasileiros, a esgrima. Claro que a origem da esgrima não advém dos combates ocorridos no quintal lá de casa, e sim, de muito tempo atrás, por volta do século XVI. Documentos egípcios comprovam a prática da esgrima na era medieval, onde homens utilizavam pedaços de madeira para caçar e se defender. No século XVII surgem na França as primeiras escolas. Gregos e romanos organizavam nas arenas de combate lutas entre os cavaleiros medievais para entreter o povo. A prática tornou-se tão popular que foi incluída no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Atenas em 1896. No Brasil, por interesse de Dom Pedro II pela modalidade, a esgrima foi incorporada ao império e, em 1858, começou a ser atividade obrigatória nos cursos de Infantaria e Cavalaria da Escola Militar de Realengo e do Batalhão de Caçadores de São Paulo.
A esgrima consiste no combate entre dois competidores (esgrimistas) utilizando uma das três armas brancas do esporte (espada, sabre ou florete) para atacar e se defender. Ganha aquele que conseguir somar mais pontos tocando com a arma o corpo do adversário. Cada arma possui sua regra específica e zona de pontuação. No sabre são válidos os toques de ponta, gume e contra gume na região da cintura pra cima. No florete e na espada são permitidos apenas os toques com a ponta da arma. A zona de pontuação do florete é a região do tronco, excluindo os braços. Já na espada, o esgrimista pode atacar em toda a extensão corporal do adversário. Para evitar ferimentos os esgrimistas utilizam equipamentos de segurança como máscara, luvas e colete. Nas competições são adaptados nos coletes sensores eletrônicos que permitem ao arbítrio fazer a contagem dos pontos cada vez que o competidor é tocado. O local dos combates chama-se pista. Mede cerca de 2 metros de largura por 14 de extensão, possuindo em suas extremidades uma área de 1,5 metros onde o esgrimista atacado não pode entrar, pois resulta em ponto a favor do adversário. Homens e mulheres de todas as idades podem praticar. Existem academias nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de janeiro, Brasília e na cidade de Belo Horizonte.
Pra você que mora em São Paulo uma boa escolha pra começar a dar as primeiras “espadadas” é a Academia Paulista de Esgrima, localizada próximo ao metrô República. Fundada em 2004 pelos Mestres de D´Armas Alkhas Lakerbai e Sergei Kovaliov , a academia já despontou diversos atletas em competições nacionais e internacionais. Assim conta o aluno Pedro Wainer, de 14 anos, promessa do sabre masculino brasileiro: “treino na APE/SP há três anos. Passei a gostar do esporte assistindo filmes de gladiadores. No começo praticava só por diversão, mas com o passar do tempo fui evoluindo tecnicamente e passei a competir em quase todos os campeonatos da minha categoria”. Pedro treina cerca de quatro horas durante três dias da semana. Toda essa dedicação lhe rendeu recentemente o título de Campeão Brasileiro de Esgrima na categoria sabre, conquistado após derrotar sete adversários. Além de Pedro, a APE/SP treina outras promessas da esgrima nacional, como Arthur Chahda, campeão do Sul Americano no Rio de Janeiro na categoria sabre juvenil, e Karina Lakerbai, terceira colocada por equipes nos Jogos Sul Americano de Medelin em 2010, e primeira colocada no ranking nacional na categoria sabre feminino.
O professor bielorrusso Sergei Kovaliov veio para o Brasil a convite do seu então ex professor de esgrima Alkhas Lakerbai, com objetivo de juntos, difundirem a prática do esporte no país. Sergei foi atleta da seleção bielorrussa entre os anos 90 e 97, e explica que o anonimato do esporte no país se deve a falta de patrocinadores interessados em apoiar a modalidade. “Numa Olimpíada o Brasil pode ganhar até nove medalhas pela a esgrima. Comparado com outros esportes, a chance do país obter uma melhor colocação no quadro de medalhas dos jogos é muito maior. E é esse detalhe que vem despertando aos poucos o interesse dos patrocinadores”, explica o bielorrusso. Esgrimista desde seus onze anos de idade, Sergei pode ser considerado um veterano na arte das espadas. O fato da esgrima ser um esporte popular na Europa, Sergei viajou por muitos países onde competiu e desenvolveu suas habilidades, enfrentando diversos atletas com diferentes técnicas. “Como em qualquer esporte onde o atleta se compromete em aperfeiçoar suas técnicas, e consequentemente alcançar maiores resultados, um bom esgrimista se faz através de muito treino, dedicação e um certo dom natural para combater” , afirma. Apesar das dificuldades e das barreiras que impedem a progressão do esporte no Brasil, a esgrima vem conquistando muitos adeptos.
Como professor da APE/SP, Sergei acredita muito no sucesso dos seus alunos e dos demais atletas espalhados pelo país: “nas competições percebe-se um alto grau técnico nos combates. Cada vez mais os brasileiros vêm aperfeiçoando as técnicas e habilidades necessárias para ser esgrimista campeão, e isso já podemos perceber assistindo as competições e observando o comprometimento dos atletas”, finaliza. E pra você que costuma brincar de lutinhas de espada no quintal de casa, ou que se impressiona com os combates dos filmes hollywoodianos, procure desenvolver suas habilidades numa escola ou academia de esgrima agora!
Por Diogo Figueiredo
TOUCHÉ, MEU CARO Conheça um pouco mais sobre a esgrima no país e no mundo
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